A sucata que escondemos.

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Realmente uma casa farta, a carroça. Estava cheia de sucata e seu Elcio, cheio de historias. Vamos lá:
Seu Elcio, filho de alagoano, nascido em São Paulo.
Começo a “prosa” perguntando-lhe sobre seu cafezinho qual segredo da praticidade naquela técnica e ele, todo orgulhoso do invento, pôs-se a me explicar.
Você coloca duas pedras e um recipiente no meio com álcool – ai eu consigo economizar os R$ 0,70 porque no final do mês a gente acaba conseguindo pagar um aluguel.
- O Sr. Mora onde?
Agora que minha mãe morreu, ela deixou uma casa no cangaiba, perto da Penha. Questiono sobre a distancia, ele explica: “em 25 minutos estou aqui, pego o praça do correio 778 ele pega a marginal e to aqui em 25 min”
- O Sr. E catador de papel ou e carroceiro?
- A turma gosta que chamem de carroceiro mesmo.
Bom gente, nós pobres mortais, espíritos rasos e ingratos vivemos às voltas com nossas angústias medos frustrações temos que nos encarar diariamente, ainda de perto, nos deparando com a nossa anormalidade, tornando-nos vítimas e culpados dela, queria muito saber como esse ser humano diante de mim, que igual a mim, portanto com as mesmas esquisitices lida com tudo isso. Daí comecei a jogar algumas questões pra provocar o seu Elcio (claro que não pretendia levantar nenhuma lebre que o entristecesse, não pretendia usar o meu interlocutor irresponsavelmente)
- O que te deixa feliz e o que te deixa triste seu Elcio?
- O que me deixa triste é o desemprego. É perceber tanta gente qualificada rodando por ai; o que me deixa feliz é ver, como quando a gente roda por ai, vai conhecendo um e outro, vai aprendendo um pouquinho com aqui, outro ali, e daqui a pouco quando gente vê, o dia já foi...
Continuou...
- Às vezes fico triste de não conseguir levantar da cama. Semana passada mesmo, fiquei na cama de quarta a sábado. A gente fica nesse rumo, pega friagem, pega vento, a gripe vem, às vezes a gente roda, roda, não bota uma sucata na carroça... Sinto-me com o corpo cansado às vezes...
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...ÀS VEZES A SUCATA ESTA ALI E VOCE NÃO A ENXERGA...
- Tenho três irmãos que estão na carroça também e eu falo pra eles: não vá no egoísmo [daí um discurso bem categórico, inflamado, convicto, bem gesticulado] porque se você vai na ganância, não vai ter sucata que chegue no seu carro..." você vai rodar, rodar, vai passar por ela e não vai enxergar. Se eu vejo uma sucata e tem um outro catador, eu penso: se não tiver de ser dele, ao vai ter como ele achar mas se ele mereceu ou se ele foi na ganância porque tomou o meu fardo eu penso: deixa ele ir, deixa ele pegar, é catador como eu, e também deve estar precisando mais"...
- E assim eu vou indo, se tem algum velho pra atravessar eu encosto minha carroça e falo: venha aqui que eu te ajudo...
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Fiquei aqui com os meus botões pensando como nos muitas vezes reclamamos da sorte, do outro, mas quantas vezes deixamos a nossa sucata escondida e quantas vezes com os nossos padrões de pensamento afastamos a nossa sucata, com a nossa energia, à revelia do comportamento do outro e nunca nos colocamos a pensar: porque é que afasto essa energia? Qual a charada que preciso sacar para desbloquear essa sucata?
Continuou o Seu Elcio: - um dia eu disse pra um sujeito que se incomodava com a minha carroça no trânsito: olha, se o senhor está se incomodando porque o destino quis que o senhor estivesse ai e eu aqui lhe incomodando, não briga comigo não! Vai brigar com a sociedade que cria essa diferença e reservou esse destino pra mim e talvez o senhor não tivesse talento pra sobreviver disso.
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Pois é, voltando à lição da sucata escondida antes que eu esqueça, quando ele contou que o egoísmo pode nos cegar cegar para nos impedir de ver a sucata escondida, ele me perguntou: "E sabe quem faz isso? É Deus! É, eu sei, Deus castiga também..."
E eu de cá com a minha ignorância...
O lixo que desprezamos pra muita gente é presente de Deus!
Como conseguimos desprezar impunemente como se lixo fosse, mercadoria tão preciosa?
Essa mesma sociedade que cria essa diferença social e ao mesmo tempo se incomoda em dividir o seu espaço com aquele que, resumidamente, é instrumento de realização da consciência ecológica, é também o braço de Deus, do Deus do castigo, o Deus da punição, que impede de revelar no lixo a sucata, a perola do catador.
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E outra coisa que eu não sabia e que eles têm ponto certo e têm alguns que são filés como o Mc´donalds alias com todo o respeito, lixo mesmo e o que ingerimos ali e o que se despreza é o que vale para alguma coisa, mas isso é uma outra historia...
Ate essa data eu não tinha a consciência em relação à reciclagem do lixo a despeito de tanta informação disponível acerca da importância dessa atitude em prol de nosso planeta, nossa casa. Mas tudo bem, cada um tem seu tempo, tem seu limite, seu aprendizado. Tive que lembrar dos meus inúmeros limites quando ouvi do Seu Elcio o seguinte desabafo:
- Toda vez que passo em frente àquele prédio dos correios [acho que nesse momento ele quase chorou mas se conteve] eu tenho vontade de largar a carroça e chutar pra frente e me vêm lágrimas nos olhos:
- Você acredita que eu repeti a 5ª série três vezes?
[ai ele faz uma cara de revolta e de desgosto]
- Isso foi em 76, quando os correios abriram vagas, mas precisava da 6ª serie e eu queria passar de um tanto, mas de um tanto, que não consegui de jeito nenhum passar. Ah, se eu passasse! cara entra ali e não sai mais nunca...
Fiquei alguns segundos imaginando o que seria do seu Elcio se ele tivesse passado pra 6ª serie... Teria filhos? Uma casa? Uma família? Seria uma pessoa bacana?
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É, talvez o seu Elcio quisesse tanto ser carteiro que de alguma maneira acabou o sendo nessa noite, porque me trouxe muitas noticias, muitas informações trazidas do seu destino errante da sua caminhada cansada e incerta, coletando o seu material, entregando pra quem deve, pra dar o destino certo e assim como o carteiro... caminha.... caminha, companheiro! No seu território demarcado, tem seu ponto de coleta certo, tem aqueles de rua de rua que, se Deus quiser, tem material, se ele nao quiser... Caminha companheiro! segue em frente, vai até a Vila Mariana, desce a Lins, vai adiante...
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Nesse momento a minha identificação meu interlocutor era tamanha que fiquei por alguns segundos desconcertada e sem saber o que dizer. A única maneira de tentar afastar esse homem daquele sentimento que lhe entristecia tanto, como se defrontar com o próprio limite foi dizer a ele que: Ele tem par nesse mundo: quantas coisas eu tento e não consigo de jeito nenhum, quantas coisas para muitos são tão obvias mas pra mim parece tão difícil...
Veja que acabo de descrever como, a despeito da culpa que sentia, não conseguia me livrar da compulsão de esvaziar o cesto do que antes via como lixo, com tanta informação que há nesse mundo e agora vejo tão claramente não passava de um gesto egoísta inconseqüente.
E seu Elcio que me ensinou tantas coisas nessa noite!! Não sei se poderia se orgulhar tanto de estar nos correios como na escola das rodagens.■
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Foi muito difícil terminar essa conversa. Quando percebi já passava de 2:30 am, e a despeito de tanta sintonia com o meu interlocutor, como eu poderia impunemente ir pra minha casa, me agasalhar e ele ali, naquela praça?
Eu não seria daquele momento em diante mais a mesma, daí negociei com ele que eu sairia e ele já levaria a sucata para a cooperativa de catadores na Lins, porque assim o corpo se esquentaria... e alguma coisa me dava a certeza de que nunca mais encontraria fisicamente seu Elsio mas definitivamente ele estaria na minha carroça. Voltei pra casa e comecei a escrever como uma maneira de me libertar daquela intensidade de reflexões decorrentes desse encontro.
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No mais, ando procurando a minha sucata por ai, rodando pela vida, tentando perceber como me aproximar e como me afasto dela...
É isso ai...
its happened in São Paulo, 2:30 am in jun,26, 2005
Só
Só,
Tenho melhores amigos
Só tenho
os "melhores amigos".
Melhores amigos
é melhor que melhor amigo
e Só.
Sara Moreira
Fiquei bem impressionada com esse poema da Bruna Lombardi, de quem eu nao conhecia ate entao seu trabalho escrito. Brilhante poema!!!!
Poema de Sombra
Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.
Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento.
[Bruna Lombardi]

