Morte do Amor?


Refletindo sobre um texto que li intitulado "todos os dias morre um amor" pensando ainda sobre a desconhecida "Terra de Ninguém", que não é desconhecida, não é terra e muitas vezes tem um dono, ou mais de um me vem na cabeça que essa terra de ninguém de repente é apropriada, quem de repente vira ninguém, e se o amor acaba esta sempre a terra condenada a ser de ninguém...esta sempre a caminhar pra morte, mas morrer é renascer, morremos sempre pra nascer de novo.

Lembro que talvez um dia eu estive diante da personificação mais próxima disso que significa ser e não ser mais no mesmo instante, mas esse desconforto me levava pensar: e daí, o que fazer com isso?

Ao visitar a exposição de mais de 600 esculturas de gelo da artista plástica Néli Azevedo, nas escadarias do municipal, e la fiquei completamente atormentada com o que via: de repente, você é tudo e depois, não é nada, como o amor e sua carga de polaridade. Naquela agonia, rabisquei esse textinho aqui embaixo, ainda num guardanapo:

Hoje eu vi a vida, a morte, e no intervalo entre um e outro: a contemplação!

Somos um monte de partículas /esparsas/ que a cada instante/Nasce/E no mesmo segundo, simultaneamente, /Morre/E assim vamos derretendo no ciclo inevitável e simultâneo Entre o viver e o morrer/Porque a cada segundo uma parte de nos/Derrete/Transforma/ Transporta /Descamba/Anda/Desanda/Derretemos pra transformar!/Pra renascer/cada segundo /uma gota que cai/e ali, a oportunidade de morrer/Oportunidade de ser /outro/livre/É preciso perceber a oportunidade que há na morte/Em cada gota de nos que cai/Necessariamente nasce outra forma/até o ultimo pingo/Com a libertação completa/Que segue escada abaixo/até /recomeçar o ciclo/de viver/ e de/morrer/Daí sublima/sobe/evolui/desce/pra evoluir/A morte /chama pra cima/CHAMA/ da morte/ CHAMAda morte/Sublima/Hoje eu vi /A vida/E a morte/E no intervalo entre um e outro: A contemplação!


Pois é, acho que o amor nos da o mesmo sentimento de ser, e de completude que, quando o perdemos, sobretudo quando somos perdidos, encontramos a morte e sua paisagem...talvez viver e amar seja a mesma coisa e seus respectivos opostos.

Talvez o amor seja o contrario da morte.

Morre quem não ama

Vivemos quando não amamos.

No entanto, a vida do amor é caminhar pra morte...

Daí porque, o grande desafio moderno significa como CAMINHAR PRA MORTE...


E o que fazer com essa constatação?

Talvez o que precisamos aprender é exatamente isso: cada segundo morremos, pra transformar; morremos, pra

(re) viver...

ser

outra coisa...

Trazendo esse papo pra nossa realidade, ontem numa conversa deliciosa, no restaurante La Tartine, onde jantávamos: eu 2 amigos (daqueles momentos que poderiam ser embalados pra viagem e congelados no freezer pra de vez em quando "deglutilo-lo, mastigá-lo, lamber a lingua") falei exatamente isso:

- A minha consciência da morte das coisas, a consciência da transformação é que me faz rechaçar a idéia do amor romântico com sininhos tocando no ouvido. Essa consciência de "caminhar pra morte" há repercutir nas minhas escolhas. Que morre, morre, que transforma, transforma! Tal constatação deveria nos fazer nos preocupar muito mais com a vida do que com a morte, muito mais com a transformação do amor do que com o amor propriamente dito -

Naturalmente, a chama do amor, nos faz parecer que tudo são flores: eu sou maravilhosa e o outro não tem defeitos, ou amo até os seus defeitos e com isso o mundo é mais fácil. E a desilusão, ao descobrir o AMOR HUMANO que é o problema, afinal esse amor, acorda com cabelo despenteado, tem mal hálito, faz xixi deixando o tampa do vaso sanitário pra cima, os peitos caem, etc...

E ai?

Se eu me preocupei somente com o amor/vida e não com a transformação/morte, essa caixa de pandora pode cair nas graças dos sentimentos rasteiros quando vemos que meu louro é urubu! por isso o amor pra mim tem que partir de uma decisão quando me deparo com alguém especial, com quem posso conversar, ser companheira, e o tesão possa partir de uma decisão pra que "exista amor pra recomeçar". Podemos ai estar diante da morte (do amor des-erotizado) a transformação ao amor erotizado, que todos os dias morre e renasce... só isso e apenas isso....

Assim, nessa terra, NINGUEM deixa de ser ALGUEM, e o caminho da morte será sempre terno... no qual o golpe fatal do cotidiano quiçá seria transformado, transcendido.

E assim, chega o dia que percebemos que o amor, como a vida não acaba, apenas SE TRANSFORMA – APENAS ISSO; se transforma nele mesmo, nasce renasce no cotidiano dos casais juntos, ou separados, quando percebemos essa mobilidade e não nos assustamos com ela, pq deixamos pra trás a idéia dos sininhos nos ouvidos, e entendemos que a diferença esta na capacidade de erotização...

Essa tal erotização que faz a gente perder ou ganhar a guerra! Se a gente se abstrai da erotização e vê nela apenas a necessidade de concretização de um amor carnal, esse que também não precisa disso na mesma intensidade todo o tempo porque ele também tem sua mobilidade! Lateral ou vertical, e pode inclusive sair da cena, e o amor continua! E ninguém deixará de ser alguém na terra dos outros!

O caminho é mais importante que o destino! E viver é arriscado! Sempre! Mas o risco é calculado quando o companheiro de viagem parte de uma decisão.



Sara Moreira

3 comentários:

Unknown disse...

Bom dia Sara!
Estava eu navegando e comecei a ler os seus textos.
Os achei muito bom, mesmo! A sua identidade com o amor e analisando o inverso, que seria a morte. Interessante, profundo até.
Gostaria de saber de onde tem essas aspirações? E, se já ouviu falar em Eneagrama, estudo de nove personalidades.
Vou sempre acompanhar suas letras, se não se incomodar.
Abraço
Denise

Anônimo disse...

Sara, Sara...te vejo andando por entre as palavras dos textos que li...
Vc tira letrinhas da alma não é amiga?
Morte do amor? que mexida que vc dá na minha cabeça! muito bom!
Um sorriso satisfeito ao ver idéias suas sendo levadas a diante e projetos se concretizando.
bjs - sua amiga
Rosa

Anônimo disse...

Sara, Sara...te vejo andando por entre as palavras dos textos que li...
Vc tira letrinhas da alma não é amiga?
Morte do amor? que mexida que vc dá na minha cabeça! muito bom!
Um sorriso satisfeito ao ver idéias suas sendo levadas a diante e projetos se concretizando.
bjs - sua amiga
Rosa