A sucata que escondemos.

*
Realmente uma casa farta, a carroça. Estava cheia de sucata e seu Elcio, cheio de historias. Vamos lá:
Seu Elcio, filho de alagoano, nascido em São Paulo.
Começo a “prosa” perguntando-lhe sobre seu cafezinho qual segredo da praticidade naquela técnica e ele, todo orgulhoso do invento, pôs-se a me explicar.
Você coloca duas pedras e um recipiente no meio com álcool – ai eu consigo economizar os R$ 0,70 porque no final do mês a gente acaba conseguindo pagar um aluguel.
- O Sr. Mora onde?
Agora que minha mãe morreu, ela deixou uma casa no cangaiba, perto da Penha. Questiono sobre a distancia, ele explica: “em 25 minutos estou aqui, pego o praça do correio 778 ele pega a marginal e to aqui em 25 min”
- O Sr. E catador de papel ou e carroceiro?
- A turma gosta que chamem de carroceiro mesmo.
Bom gente, nós pobres mortais, espíritos rasos e ingratos vivemos às voltas com nossas angústias medos frustrações temos que nos encarar diariamente, ainda de perto, nos deparando com a nossa anormalidade, tornando-nos vítimas e culpados dela, queria muito saber como esse ser humano diante de mim, que igual a mim, portanto com as mesmas esquisitices lida com tudo isso. Daí comecei a jogar algumas questões pra provocar o seu Elcio (claro que não pretendia levantar nenhuma lebre que o entristecesse, não pretendia usar o meu interlocutor irresponsavelmente)
- O que te deixa feliz e o que te deixa triste seu Elcio?
- O que me deixa triste é o desemprego. É perceber tanta gente qualificada rodando por ai; o que me deixa feliz é ver, como quando a gente roda por ai, vai conhecendo um e outro, vai aprendendo um pouquinho com aqui, outro ali, e daqui a pouco quando gente vê, o dia já foi...
Continuou...
- Às vezes fico triste de não conseguir levantar da cama. Semana passada mesmo, fiquei na cama de quarta a sábado. A gente fica nesse rumo, pega friagem, pega vento, a gripe vem, às vezes a gente roda, roda, não bota uma sucata na carroça... Sinto-me com o corpo cansado às vezes...
*
...ÀS VEZES A SUCATA ESTA ALI E VOCE NÃO A ENXERGA...
- Tenho três irmãos que estão na carroça também e eu falo pra eles: não vá no egoísmo [daí um discurso bem categórico, inflamado, convicto, bem gesticulado] porque se você vai na ganância, não vai ter sucata que chegue no seu carro..." você vai rodar, rodar, vai passar por ela e não vai enxergar. Se eu vejo uma sucata e tem um outro catador, eu penso: se não tiver de ser dele, ao vai ter como ele achar mas se ele mereceu ou se ele foi na ganância porque tomou o meu fardo eu penso: deixa ele ir, deixa ele pegar, é catador como eu, e também deve estar precisando mais"...
- E assim eu vou indo, se tem algum velho pra atravessar eu encosto minha carroça e falo: venha aqui que eu te ajudo...
*
Fiquei aqui com os meus botões pensando como nos muitas vezes reclamamos da sorte, do outro, mas quantas vezes deixamos a nossa sucata escondida e quantas vezes com os nossos padrões de pensamento afastamos a nossa sucata, com a nossa energia, à revelia do comportamento do outro e nunca nos colocamos a pensar: porque é que afasto essa energia? Qual a charada que preciso sacar para desbloquear essa sucata?
Continuou o Seu Elcio: - um dia eu disse pra um sujeito que se incomodava com a minha carroça no trânsito: olha, se o senhor está se incomodando porque o destino quis que o senhor estivesse ai e eu aqui lhe incomodando, não briga comigo não! Vai brigar com a sociedade que cria essa diferença e reservou esse destino pra mim e talvez o senhor não tivesse talento pra sobreviver disso.
*
Pois é, voltando à lição da sucata escondida antes que eu esqueça, quando ele contou que o egoísmo pode nos cegar cegar para nos impedir de ver a sucata escondida, ele me perguntou: "E sabe quem faz isso? É Deus! É, eu sei, Deus castiga também..."
E eu de cá com a minha ignorância...
O lixo que desprezamos pra muita gente é presente de Deus!
Como conseguimos desprezar impunemente como se lixo fosse, mercadoria tão preciosa?
Essa mesma sociedade que cria essa diferença social e ao mesmo tempo se incomoda em dividir o seu espaço com aquele que, resumidamente, é instrumento de realização da consciência ecológica, é também o braço de Deus, do Deus do castigo, o Deus da punição, que impede de revelar no lixo a sucata, a perola do catador.
*
E outra coisa que eu não sabia e que eles têm ponto certo e têm alguns que são filés como o Mc´donalds alias com todo o respeito, lixo mesmo e o que ingerimos ali e o que se despreza é o que vale para alguma coisa, mas isso é uma outra historia...
Ate essa data eu não tinha a consciência em relação à reciclagem do lixo a despeito de tanta informação disponível acerca da importância dessa atitude em prol de nosso planeta, nossa casa. Mas tudo bem, cada um tem seu tempo, tem seu limite, seu aprendizado. Tive que lembrar dos meus inúmeros limites quando ouvi do Seu Elcio o seguinte desabafo:
- Toda vez que passo em frente àquele prédio dos correios [acho que nesse momento ele quase chorou mas se conteve] eu tenho vontade de largar a carroça e chutar pra frente e me vêm lágrimas nos olhos:
- Você acredita que eu repeti a 5ª série três vezes?
[ai ele faz uma cara de revolta e de desgosto]
- Isso foi em 76, quando os correios abriram vagas, mas precisava da 6ª serie e eu queria passar de um tanto, mas de um tanto, que não consegui de jeito nenhum passar. Ah, se eu passasse! cara entra ali e não sai mais nunca...
Fiquei alguns segundos imaginando o que seria do seu Elcio se ele tivesse passado pra 6ª serie... Teria filhos? Uma casa? Uma família? Seria uma pessoa bacana?
*
É, talvez o seu Elcio quisesse tanto ser carteiro que de alguma maneira acabou o sendo nessa noite, porque me trouxe muitas noticias, muitas informações trazidas do seu destino errante da sua caminhada cansada e incerta, coletando o seu material, entregando pra quem deve, pra dar o destino certo e assim como o carteiro... caminha.... caminha, companheiro! No seu território demarcado, tem seu ponto de coleta certo, tem aqueles de rua de rua que, se Deus quiser, tem material, se ele nao quiser... Caminha companheiro! segue em frente, vai até a Vila Mariana, desce a Lins, vai adiante...
*
Nesse momento a minha identificação meu interlocutor era tamanha que fiquei por alguns segundos desconcertada e sem saber o que dizer. A única maneira de tentar afastar esse homem daquele sentimento que lhe entristecia tanto, como se defrontar com o próprio limite foi dizer a ele que: Ele tem par nesse mundo: quantas coisas eu tento e não consigo de jeito nenhum, quantas coisas para muitos são tão obvias mas pra mim parece tão difícil...
Veja que acabo de descrever como, a despeito da culpa que sentia, não conseguia me livrar da compulsão de esvaziar o cesto do que antes via como lixo, com tanta informação que há nesse mundo e agora vejo tão claramente não passava de um gesto egoísta inconseqüente.
E seu Elcio que me ensinou tantas coisas nessa noite!! Não sei se poderia se orgulhar tanto de estar nos correios como na escola das rodagens.■
*
Foi muito difícil terminar essa conversa. Quando percebi já passava de 2:30 am, e a despeito de tanta sintonia com o meu interlocutor, como eu poderia impunemente ir pra minha casa, me agasalhar e ele ali, naquela praça?
Eu não seria daquele momento em diante mais a mesma, daí negociei com ele que eu sairia e ele já levaria a sucata para a cooperativa de catadores na Lins, porque assim o corpo se esquentaria... e alguma coisa me dava a certeza de que nunca mais encontraria fisicamente seu Elsio mas definitivamente ele estaria na minha carroça. Voltei pra casa e comecei a escrever como uma maneira de me libertar daquela intensidade de reflexões decorrentes desse encontro.
*
No mais, ando procurando a minha sucata por ai, rodando pela vida, tentando perceber como me aproximar e como me afasto dela...
É isso ai...
its happened in São Paulo, 2:30 am in jun,26, 2005
Só
Só,
Tenho melhores amigos
Só tenho
os "melhores amigos".
Melhores amigos
é melhor que melhor amigo
e Só.
Sara Moreira
Fiquei bem impressionada com esse poema da Bruna Lombardi, de quem eu nao conhecia ate entao seu trabalho escrito. Brilhante poema!!!!
Poema de Sombra
Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.
Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento.
[Bruna Lombardi]
Cozinhar....
Andando por ai e falando gringo
http://blog.musibrasil.net/2007/07/16/il-volo-della-colomba
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Morte do Amor?
Refletindo sobre um texto que li intitulado "todos os dias morre um amor" pensando ainda sobre a desconhecida "Terra de Ninguém", que não é desconhecida, não é terra e muitas vezes tem um dono, ou mais de um me vem na cabeça que essa terra de ninguém de repente é apropriada, quem de repente vira ninguém, e se o amor acaba esta sempre a terra condenada a ser de ninguém...esta sempre a caminhar pra morte, mas morrer é renascer, morremos sempre pra nascer de novo.
Lembro que talvez um dia eu estive diante da personificação mais próxima disso que significa ser e não ser mais no mesmo instante, mas esse desconforto me levava pensar: e daí, o que fazer com isso?
Ao visitar a exposição de mais de 600 esculturas de gelo da artista plástica Néli Azevedo, nas escadarias do municipal, e la fiquei completamente atormentada com o que via: de repente, você é tudo e depois, não é nada, como o amor e sua carga de polaridade. Naquela agonia, rabisquei esse textinho aqui embaixo, ainda num guardanapo:
Hoje eu vi a vida, a morte, e no intervalo entre um e outro: a contemplação!
Somos um monte de partículas /esparsas/ que a cada instante/Nasce/E no mesmo segundo, simultaneamente, /Morre/E assim vamos derretendo no ciclo inevitável e simultâneo Entre o viver e o morrer/Porque a cada segundo uma parte de nos/Derrete/Transforma/ Transporta /Descamba/Anda/Desanda/Derretemos pra transformar!/Pra renascer/cada segundo /uma gota que cai/e ali, a oportunidade de morrer/Oportunidade de ser /outro/livre/É preciso perceber a oportunidade que há na morte/Em cada gota de nos que cai/Necessariamente nasce outra forma/até o ultimo pingo/Com a libertação completa/Que segue escada abaixo/até /recomeçar o ciclo/de viver/ e de/morrer/Daí sublima/sobe/evolui/desce/pra evoluir/A morte /chama pra cima/CHAMA/ da morte/ CHAMAda morte/Sublima/Hoje eu vi /A vida/E a morte/E no intervalo entre um e outro: A contemplação!
Pois é, acho que o amor nos da o mesmo sentimento de ser, e de completude que, quando o perdemos, sobretudo quando somos perdidos, encontramos a morte e sua paisagem...talvez viver e amar seja a mesma coisa e seus respectivos opostos.
Talvez o amor seja o contrario da morte.
Morre quem não ama
Vivemos quando não amamos.
No entanto, a vida do amor é caminhar pra morte...
Daí porque, o grande desafio moderno significa como CAMINHAR PRA MORTE...
E o que fazer com essa constatação?
Talvez o que precisamos aprender é exatamente isso: cada segundo morremos, pra transformar; morremos, pra
(re) viver...
ser
outra coisa...
Trazendo esse papo pra nossa realidade, ontem numa conversa deliciosa, no restaurante La Tartine, onde jantávamos: eu 2 amigos (daqueles momentos que poderiam ser embalados pra viagem e congelados no freezer pra de vez em quando "deglutilo-lo, mastigá-lo, lamber a lingua") falei exatamente isso:
- A minha consciência da morte das coisas, a consciência da transformação é que me faz rechaçar a idéia do amor romântico com sininhos tocando no ouvido. Essa consciência de "caminhar pra morte" há repercutir nas minhas escolhas. Que morre, morre, que transforma, transforma! Tal constatação deveria nos fazer nos preocupar muito mais com a vida do que com a morte, muito mais com a transformação do amor do que com o amor propriamente dito -
Naturalmente, a chama do amor, nos faz parecer que tudo são flores: eu sou maravilhosa e o outro não tem defeitos, ou amo até os seus defeitos e com isso o mundo é mais fácil. E a desilusão, ao descobrir o AMOR HUMANO que é o problema, afinal esse amor, acorda com cabelo despenteado, tem mal hálito, faz xixi deixando o tampa do vaso sanitário pra cima, os peitos caem, etc...
E ai?
Se eu me preocupei somente com o amor/vida e não com a transformação/morte, essa caixa de pandora pode cair nas graças dos sentimentos rasteiros quando vemos que meu louro é urubu! por isso o amor pra mim tem que partir de uma decisão quando me deparo com alguém especial, com quem posso conversar, ser companheira, e o tesão possa partir de uma decisão pra que "exista amor pra recomeçar". Podemos ai estar diante da morte (do amor des-erotizado) a transformação ao amor erotizado, que todos os dias morre e renasce... só isso e apenas isso....
Assim, nessa terra, NINGUEM deixa de ser ALGUEM, e o caminho da morte será sempre terno... no qual o golpe fatal do cotidiano quiçá seria transformado, transcendido.
E assim, chega o dia que percebemos que o amor, como a vida não acaba, apenas SE TRANSFORMA – APENAS ISSO; se transforma nele mesmo, nasce renasce no cotidiano dos casais juntos, ou separados, quando percebemos essa mobilidade e não nos assustamos com ela, pq deixamos pra trás a idéia dos sininhos nos ouvidos, e entendemos que a diferença esta na capacidade de erotização...
Essa tal erotização que faz a gente perder ou ganhar a guerra! Se a gente se abstrai da erotização e vê nela apenas a necessidade de concretização de um amor carnal, esse que também não precisa disso na mesma intensidade todo o tempo porque ele também tem sua mobilidade! Lateral ou vertical, e pode inclusive sair da cena, e o amor continua! E ninguém deixará de ser alguém na terra dos outros!
O caminho é mais importante que o destino! E viver é arriscado! Sempre! Mas o risco é calculado quando o companheiro de viagem parte de uma decisão.
Sara Moreira
O simples é mais difícil....
Pensando sobre tudo o que ouço a respeito da música de Tom Zé, Carlinhos Brown [caramba! que som esse homem faz!], e Naná Vasconcelos, Jorge Ben Jor quem pra mim é o PAI DA SONORIDADE A SERVIÇO DA PALAVRA, lembro de uma passagem de uma tradução de livro taoista e q o Tao entendia que não tinha nada a ensinar pra um agricultor de vida simples, quem come qd tem fome, etc, etc.. Me parece que - SUPERVALORIZAMOS A PALAVRA EM DETRIMENTO DA VIDA E DO ESPIRITO - essa minha viagem indica que se o som tb representa uma passagem pra o espírito (o Tao diz isso tb) se ele chega em seu destino, através do som antes das palavras, essas, há de dançarem no movimento do som, NEM MAIS E NEM MENOS.... O SUFICIENTE, acho até um EXERCÍCIO DE HUMILDADE DA PALAVRA, o suficiente, como a vida do agricultor, e pra entender isso basta comparar a nossa dificuldade àquele modo simples de vida em face da nossa complexidade e paradoxalmente lemos lemos lemos sobre espiritualidade, filosofia e o diabo a quatro, todos tentando chegar aonde aquele homem ja chegou... O SIMPLES SEMPRE ME PARECEU MUITO DIFICIL, muito inatingível, por isso, autores assim sempre tiveram minha admiração (ninguém critica Drumond com a tal pedra no caminho.
Essa tendência é a mesma de quem SUPERVALORIZA AS PALAVRAS EM DETRIMENTO DA VIDA, das ações (nos todos, uns mais, outros menos)
Através desse tipo de som, portanto, venho aprendendo que:
1. A vida [a sonoridade que chega no espírito] vem antes que as palavras suas meras serviçais e expectadoras;
2. O simples é muito mais difícil;
3. É um exercício de humildade da palavra.
4. Então,
Vamos dançar! dançar! abstraia e... dance! dance! dance!
Solte o corpo, liberte a mente e seu espírito entendera mais rápido que sua mente poluída de idéias!
"deixe eu dançar pra o meu corpo ficar Odara, minha cara, minha cuca ficar Odara, pra ficar tudo joia rara,
...canto e danço que DARÁ!
Sara Moreira - 31/07/2006 10:25
O Parto
Daí entre a espera do parto e a incerteza do futuro
começa a imaginar a feição da criança,
que cada dia ia lhe parecendo mais nítida
cada dia um detalhe era mais claro
Será que ela vai ser legal?
Será que as pessoas vão gostar dela?
Será que se sentira diferente?
Será que ela vai ter atitude pra ser diferente?
Será que sentira confortável em seu lugar no mundo?
Dia do parto.
Ela pega a sua sacolinha,
Na sala de espera ela analisa as demais gestantes...
Será que ela vai ter coragem?
Inútil pensar nisso...
O processo de parto se inicia....
Ela deita na maca,
Tensa, ela canta, chora e ri.
O trabalho é fotografado.
Nasceu!
Grande e bonita,
Firme e forte,
Recuperada, passado o susto,
Lá vão eles:
Ela, a tatuagem e o pescoço....
Eternamente inseparáveis.
Sara Moreira,
Contemplação

Somos um monte de partículas esparsas que a cada instante
Nasce!
E no mesmo segundo,
simultaneamente,
E assim vamos
Der
re
no ciclo i-ne-vi-tá-vel
morrer
Porque
Derrete
Transporta
Descamba
Anda
Desanda
Derretemos pra
transformar!
Pra
renascer
cada segundo,
uma
gota
cai
e ali,
a oportunidade
de morrrer!
a oportunidade
de ser!
outro!
livre!
É preciso perceber a oportunidade que há na morte
Porque em cada gota de nós que cai
Necessariamente
nasce outra forma
até o ultimo pingo
Com a libertação completa
Que
segue
escada
abaixo
até recomeçar o ciclo
de viver
e de morrer
Daí sublima
evolui
desce
pra evoluir
A morte chama pra cima
Sublima
Hoje eu vi
A vida
E a morte
E no intervalo entre um e outro:
A contemplação!
(Sara Moreira, ainda em estado de devoção diante da exposição de mais de 600 esculturas de gelo feitas pela artista plástica Néle Azevedo, que naquele dia aos meus olhos foi Deus, o Deus da criação, o Deus da oportunidade, o Deus da renovação, o Deus dentro de mim, o Deus onipresente nas escadarias do Municipal de São Paulo, em comemoração aos 450 anos da cidade)
Quem é o homem, quem é o pombo?

Quem é o homem e quem é a pomba?
quem é livre e quem está preso?
Quem tem limitada sua capacidade de voar de sonhar de concretizar? De quem são as mãos que impedem de voar?
Pra qual horizonte esse olhos voam?
Pra que terras eles querem voar?
De qual terra lhes tiraram?
Quem é o pombo?
Quem é o homem?
De quem são as mãos?
Quem lhes retirou a possibilidade de voar?
Não sei.
Sei apenas que enquanto pomba,
Tenho esperança,
Enquanto homem,
Tenho fé!
Enquanto permanece a minha capacidade de olhar pra o horizonte,
posso voar!
[Sara, 26/10/2006]

